domingo, 22 de janeiro de 2012

Livre outra vez


Eu sei que eu tive uma infância diferente da de muitas pessoas - talvez semelhante a quem tivesse pais roqueiros como eu tive, em maior ou menor grau. Fato é que brincar no chão do estúdio enquanto meu pai ensaiava com a banda de heavy-metal dele era uma coisa cotidiana. Ou então desenhar sentada na mesa enquanto minha mãe trabalhava no seu atelier ouvindo (e cantando a plenos pulmões) Rita Lee. Ou não ter a menor ideia de quem era aquele tal de Carlini, quando meu pai abria o portão para ele entrar e tocar junto com outros caras como o Rufino, Faíska, enfim, a galera da Pompéia toda. Essa era a minha infância.

Minha mãe sempre foi muito fã da Rita e eu cresci com a mesma admiração. Quer dizer, no caso dela eu considero diferente, pois minha mãe seria a melhor amiga da Rita Lee com certeza, pois são muito parecidas. Eu não. Meu caso é de fã mesmo. Mas, quando paro para pensar sobre a influência da Rita na minha vida, vejo que vem lá de longe. E ela está presente há mais tempo que os próprios Beatles, semelhante, talvez, a KISS e Deep Purple no quesito "eu ouço isso desde que eu nasci".

Diz minha mãe que, quando eu era pequena, eu só dormia quando ela cantava 'Disco Voador', da Rita. E eu também sempre fui meio aficcionada por ufologia mesmo.

E nós tínhamos vários vinis, como era de se esperar. Não tenho ideia de onde foram parar, infelizmente. Há alguns anos, encontrei o "Fruto Proibido" (Rita Lee & Tutti Frutti, 1975) na Benedito Calixto e comprei tão feliz que o ouvi durante semanas novamente. Como aquele disco é bom. Ele é praticamente um "Venus & Mars" da Rita. Lembro do DVD da biografia dela (aquele triplo), onde ela fala dessa fase que foi tão trash, que ela não sabia o que faria depois de sair dos Mutantes, se ia ganhar dinheiro ou só cantar no chuveiro. E aquele primeiro show que ela fez com o Tutti e a Lucinha Turnbull, toda Bowiezada, acho sensacional! Me arrepia todo o braço só de ter toda a superação e, sim, ela estava ali, vivaça, roqueira, dando um pé na bunda do Sérgio Dias e fazendo rock. Mais ou menos quando o Paul saiu dos Beatles mesmo e fez sucesso com o Wings. Ao ver a Rita entrando no palco naquele show, mesmo que somente pela TV, eu sinto um orgulho imenso de ser mulher e tocar, ter banda, porque não é pra qualquer uma não.

  Um dos aspectos que eu mais admiro na Rita é a habilidade de compôr em língua portuguesa. Ela conta lá no DVD também que foi o Caetano que deu uns toques para eles e aí ela deslanchou. Eu acho que ninguém escreve nem nunca escreveu músicas em português (rock, fique claro, mas mesmo outros estilos, se bobear) como ela. Na dúvida, basta fazer um passeio pela discografia e conferir. E acho que 80% das letras, só sendo mulher para entender de verdade.

O disco que ela gravou com a LT, "As Cilibrinas do Éden", foi meu preferido durante um bom tempo, quando eu descobri (obrigada, internet). Ouvi 'Bad Trip' tantas vezes que às vezes até esqueço que não é de nenhum disco "oficial".

Mas a fase feliz da Rita, de quando ela conhece o Roberto de Carvalho (um marido que também é fã, #quemcurte), é a minha preferida. 'Banho de Espuma' tocou incessamente nas rádios e toca até hoje. Todos os discos da Rita pós-Roberto são bacanas para aprender - verdadeiras aulas de composição, acordes diferentes ('Mania de Você') e contrabaixo ('Chega Mais'). E eu poderia ficar aqui citando várias músicas e as características de cada uma delas, porque fã é assim mesmo.

E a tonta aqui que, quando era adolescente, lembrava todo mundo ao redor que no revéillon também era aniversário da Rita Lee. E eu sempre que desejava parabéns a ela, por pensamento. Olha as maluquices. Daí uma vez, com uns 15 anos, eu cheguei em casa e meu pai estava no portão conversando com o Carlini e mais alguém que eu não me lembro. E, de boa, eu nunca fui muito fã dele.  Acabei soltando a clássica: "deve ser difícil viver de um solo que você criou há tantos anos". Quase apanhei do meu pai, mas no fundo ele sabia que eu estava certa, haha.

A primeira música que eu aprendi a tocar no violão foi 'Doce Vampiro' (Em-Am, fácil para quem está começando), que uma amiga me ensinou. E eu sempre tive a Rita como um modelo de artista nacional mulher e roqueira que era minha referência. Tanto que quase mandei um professor para-aquele-lugar na faculdade de Jornalismo, quando ele pediu para que a turma entrevistasse alguém importante e, quando eu disse que queria entrevistá-la, ele fez um comentário imbecil a respeito, porque ela não estava na mídia etc. Fiquei enojada. Não foi por isso que eu saí da faculdade, mas esse tipo de coisa contribuíu bastante. E eu ainda fico chocada (esse é o termo certo) sobre como as pessoas simplesmente não conhecem nem tentam entender a importância que a Rita tem para a música brasileira. Eu acho que, em termos de importância/fama/composição/popularidade, ela só perde para o Roberto Carlos. Aí eu lembro que vivemos em um país machista de m* e lembro do motivo.


Mas sabe o que é o pior de tudo, tudo, tudo? É que eu nunca fui a um só show dela. E agora ela se aposentou, eu estou chegando no Rio só amanhã e as coincidências continuam guiando a minha vida.

Eu gosto de pensar na Rita como uma mulher que transformou a música brasileira. Que formou o rock brasileiro. Que foi cult ao mesmo tempo que teve 90% das novelas com músicas suas na trilha sonora. Que viveu, sobreviveu à fama, teve que aguentar muita bad trip furada de música estranha pra gente esquisita. Mas que, acima de tudo, foi uma pessoa que sempre fez o que quis, erra, acerta, ama, odeia, xinga, mostra o dedo do meio no show, fala bem dos filhos, e além de tudo compôe como ninguém.

Sabe, Rita, eu sei que você vai ficar numa boa aí com as suas plantinhas. Mas continue postando no Twitter, para a gente aqui do outro lado saber que você está bem. Here, there and everywhere.

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