Para mim, é extremamente difícil escrever sobre esse assunto. Quem me conhece sabe como o George sempre foi o meu Beatle preferido. Antigamente, eu assinava como Thais Harrison. Lá, bem antigamente, quando eu ainda era praticamente criança e montei um fã-clube dos Beatles. Muita gente ainda me conhece assim, daquela época. Então assim, meu relato não vai ter muita ordem, mas vai ser de coração, na medida que eu conseguir escrever sem parecer piegas demais. O que eu não podia fazer era deixar essa data passar em branco sem escrever nada, nem uma nota.
Quando a gente vê o George lá no comecinho dos Beatles não consegue imaginar que a mesma pessoa compôs um álbum como o All Things Must Pass, tão pouco tempo depois. Quer dizer, ele lançou esse disco em uma quantidade de tempo menor do que a que existe entre ele e 'Don't Bother Me', do que os 10 anos que hoje completam desde a sua morte, em 2001.
Quando eu penso no George, vejo um garoto sarcástico que via além do que os outros viam. Não era um sarcasmo igual ao do John, de provocação, mas de sátira mesmo daquele mundo em que ele vivia e achava maluco. E ele era um Beatle - imagina só tudo o que ele já viu. Depois, quando ele conheceu a cultura oriental e mergulhou tão fundo, para nunca mais voltar, e as palavras da Olivia sobre "ele começar a se preparar para o que ele vinha realmente ensaiando há tanto tempo"... tudo isso me comove muito. Eu conheço pouco da filosofia hare-krishna, mas tenho certo apreço pelo budismo, que tem alguns pontos parecidos. Um deles é o de que você passa a vida toda se preparando para o momento em que vai morrer - quer dizer, você faz o que tem que fazer, deixa o seu legado, mas se prepara espiritualmente para a chegada da morte, para que ela não seja algo ruim, mas simplesmente uma passagem, o fim do físico. E ouvir da Olivia que o George disse isso me comoveu muito. A gente trabalha a nossa espiritualidade mas, né, no caso dele, também grava discos, vive a vida. E, quando ele sofreu aquele atentado, ele ficou chocado por descobrir que não estava preparado para morrer, voltando sua vida para isso dali em diante. Para mim, foi algo tipo "chega de brincar de religião, agora vou fazer tudo o que eu vim estudando esses anos todos". E morreu com um "love one another" de arrepiar a espinha.
Eu não sei, sabe. Adoro a Pattie Boyd e, apesar de (ainda) não ter lido seu livro, tudo o que eu li a respeito dela e relatos da própria sobre aquele período me fazem imaginar o quão sofrido foi para todo mundo que esteve envolvido. Pensar em um George sacana, trancado com a Maureen em outro quarto, dando risadas, é assustador. Mas não espero perfeição de ninguém, e acho que é isso o que tornava o George tão humano: seus erros e, acima de tudo, seu senso de humor. Um humor dolorido, sempre com um algo mais por trás do sorriso, e que depois encontraria amizade na galera do Monty Python, especialmente no Eric Idle - outro que eu adoro. Não tem uma vez sequer durante o Anthology que eu não ache o George sensacional em suas respostas, quando ele sempre dava uma risadinha com a boca torta querendo dizer "nheeee, nem era assim, mas vou dar a resposta mais fácil".
Além de tudo, ele era pisciano, o que já é um dado essencial sobre a sua personalidade - quieto, obscuro, meio arrogante, sarcástico, emotivo introspectivamente, amigo dos amigos, mas na dele. Vejo algumas fotos do tempo do cabelão e vejo um George meio gótico, sombrio, e era realmente uma fase assim pela qual ele estava passando. Tudo faz sentido, hoje.
Quando ele morreu, eu descobri vendo nos jornais a caminho da faculdade, pela manhã. Na sala de aula, meus colegas me cumprimentavam como se alguém da minha família tivesse morrido. Eu nem conseguia respirar. Não consegui ficar na aula, saí da faculdade e fui direto para o Centro, quando encontrei o Luiz (do Cavern Club), com os olhos vermelhos e trabalhando ali, na sua banquinha, porque sabia que algum fã de Beatles iria até ele e ele queria estar lá. Tudo foi muito comovente. Eu o abracei, chorei. Conversamos sobre alguns discos, inevitavelmente sobre a morte do John, há tantos anos, e de como não estamos preparados para um acontecimento desses com alguém que é tão inspirador para todos nós. Era aquilo: nós já esperávamos? Sei lá. Acho que a gente nunca espera uma coisa dessas.
Eu me lembro que, quando comecei a tocar guitarra, li no livro do Hunter Davies que o George só parava de tocar quando seus dedos estavam sangrando. Dá para entender a magnitude de uma força de vontade dessas? Então eu tinha aquilo como o meu parâmetro para parar de tocar e ir dormir. Bons tempos aqueles.
No final das contas, all things must pass? Será? Estamos aqui, 10 anos depois da sua morte, lamentando tanto. Eu, pelo menos, alimentei esse luto há vários meses. Ouvi quase que exclusivamente os álbuns solo dele este ano e, hoje, acordei com um sentimento extremamente diferente. Eu não queria ficar triste. Procurei fotos bacanas dele pela internet para colocar no meu Facebook e só encontrei fotos dele dando risada, feliz, ou ao menos contente. E isso é o George. É participar do Rutles como um repórter chato. É estar ao lado do Eric Idle quando uma fã de Beatles vem e nem o reconhece. É gravar 'How Do You Sleep' com o John e mandando ver na provocação para o Paul. É largar toda uma loucura beatlemaníaca ao seu redor para cuidar do jardim. Isso é o George.
Eu agradeço por ele não ter morrido naquele atentado, porque nós sabemos que isso geraria um ataque insano aos outros dois, tipo "a maldição dos Beatles". O Paul nem sairia de casa direito. E também porque ele não estava preparado para morrer, nem merecia morrer daquele jeito. Ele se preparou para a morte e morreu como quis.
Art of dying? Definitivamente.
That is all I want to say
Our love could save the day
That is all I'm waiting for
To try to love you more...



Quando ele faleceu eu tinha 11 anos, e chorei por uma semana inteira. Depois disso muita coisa pareceu perder a graça para mim. Considero até 2001 como um dos anos mais tristes na minha vida por causa desse dia tão cinza.
ResponderExcluirMuita gente acha exagero da minha parte dizer algo do tipo, pois meio mundo pensa: "mas, ué, ele nem era seu parente nem nada disso!" ou dizem: "impossível! Você era tão criança que não tinha nem condição de entender um fato como esse!"
Mas eu acho que você acredita nessa dor que eu senti. Pelo tom do seu texto, o que você sentiu era bem semelhante.
De uns anos pra cá tenho tentado não pensar negativamente na morte do George. Sinto que ele não ficaria feliz com isso.
Mas, enfim, gostei muito do seu texto =)
Que possamos lembrar de George com muito amor, sempre.