Quando li que a Pitty lançaria um disco inspirado no Nick Drake, me deu calafrios. Não porque eu pensei que popularizaria um artista que definitivamente não foi feito para ser popular. Pensei que isso talvez levasse alguns fãs dela a conhecerem a obra dele, e achei menos pior. Julguei a qualidade do disco mesmo.
Ouvi a primeira música divulgada, 'Dançando', e claro que não posso falar sobre o disco todo antes de ouví-lo, mas tenho algumas considerações a fazer sobre a música no geral.
Em primeiro lugar, achei o dedilhado inicial fraquíssimo. O dia que isso puder ser associado ao Nicholas, podem dizer para eu virar fã de Capital Inicial. Mas não achei a música ruim, antes que vocês pensem isso. A música é bonita. Até a ms. Priscilla começar a cantar.
Eu gostava da Pitty, mais ou menos. Quando ela começou, trazendo a tona o cenário do rock baiano, e toda com boa vontade e fúria para fazer música, no auge do sentimento adolescente que a maioria de nós experimentou, eu achei bacana. Ela gostava de Pantera! Quer dizer, isso não é comum para uma artista brasileira que estava ficando famosa. Também vi alguns pedaços de um programa que mostrava a casa dela, o quarto que ela (e o então namorado) montaram, onde ela escrevia as músicas, e até me identifiquei. Achei que ela merecia fazer sucesso. Então tive uma espécie de simpatia por ela por conta de todas essas coisas.
Só que aí começaram a acontecer fatos que decepcionam um pouco. Enfiaram ela no acústico do Ira, algo totalmente fake, apenas para projetá-la nacionalmente. E a música com a letra mega-clichê ("quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra-ah") e depois defendendo os fracos e oprimidos ("o importante é ser você, mesmo que seja estranho, seja você"). Nada muito diferente do que o Paulo Coelho, Augusto Cury e similares falam. Mas ok, atinge o público. Só que, musicalmente, a banda era boa. Eu realmente gostava e ignorava as letras (como faço com tantas músicas que eu gosto). Até que deu.
Ela mergulhando cada vez mais em um mar de clichês e a MTV plantando-a insistentemente como "a novidade que todo mundo deveria adorar" me irritavam profundamente. Tiraram a aura rock'n roll da coisa toda, de batalhar, fazer shows, compôr etc para chegar lá. O encantamento, que já era fraco, se quebrou. Quando vieram prêmios tipo o VMB, eu parei de prestar atenção.
Quando eu olho para a capa de "Admirável Chip Novo", eu fico um pouco triste porque vejo a Pitty roqueira que era legal. E aí corta para o clipe nonsense de 'Me Adora', que provavelmente é a música mais "vergonha-alheia" do rock nacional, onde ela atinge níveis pretensiosos dignos de fazer o Rafinha Bastos ficar com inveja. Porque todos invejam a Pitty. Ela é foda. u-hu.
Lembro de um programa onde estavam ela, a Rita Lee e a Wanderléia, no GNT, talvez, e ela simplesmente não conseguia conversar com as duas. Ela não estava no mesmo patamar e precisava comer muito arroz com feijão para chegar, mas achava que se equiparava. E acho que esse foi o grande erro que a MTV colocou na sua cabeça - conferir-lhe um status de que era foda, invejada, a cara oficial do rock brasileiro. Quando, na verdade, ela só é mais um produto da indústria fonográfica. E qual a surpresa? Tantos artistas são assim! O problema, pelo menos para mim, é que ela tinha conteúdo. Tinha potencial. Antes. Até subir a cabeça e achar que todos os clichês do mundo sustentavam uma carreira musical que ela achava que tinha. Mas nunca teve. Poderia ter tido. Enfim.
E então ela me vem com um lançamento como "Agridoce", com a mesma pretensão que os Los Hermanos quando lançaram "O Bloco do Eu Sozinho" - quer ir do A Hard Day`s Night ao Sgt. Peppers sem passar pelo amadurecimento necessário para tal feito. Pode ser um disco bom? Claro que sim. Mas, pelo que eu ouvi do primeiro single ('Dançando'), tenho outras considerações a fazer além do dedilhado e das qualidades do guitarrista, que parece ser a alma do disco.
Em segundo lugar, e suficientemente argumentativa, a letra mais clichê impossível, já característica de todas as letras da Pitty. "O mundo acabar hoje e eu estarei dançando". Algo como Dinho Ouro Preto cantando "o mundo vai acabar e ela só quer dançar". Ou a atendente de telemarketing mais próxima de você dizendo "sua conta cancelada hoje e eu estarei transferindo". Todo um tema incessantemente trabalhado pelas últimas gerações da música de volta, reunindo todos os clichês. Clichês, clichês e mais clichês. Mas sabe o que acontece? Isso vende. Provavelmente, vai virar um dos maiores sucessos dela. Mas o que isso diz? O que já estamos cansados de saber sobre o gosto de quem consome essas músicas.
Em terceiro lugar, o nome do disco. "Chiaroscuro" não foi suficientemente "senta lá, Cláudia" para as metáforas de antagonismo? Claro/escuro é tão boboca e raso quanto amargo/doce, mas o que realmente impressiona é a continuidade do pensamento. Nada de inovador para alguém que deve ter ouvido Nick Drake pela primeira vez porque foi apresentado pelo guitarrista, esse sim uma alma musical que vale a pena prestar atenção. Li no Scream&Yell uma entrevista com os dois e fica clara a superficialidade da Pitty, uma pena.
"Tenho a mania de sempre fazer o texto primeiro, com calma, com tempo. No Agridoce foi interessante me ver arrancada dessa zona de conforto algumas vezes, quando tínhamos uma música pronta e Martin me incitava a fazer a letra ali, na hora. Eu dava uma surtada, ficava meio louca, achando impossível de acontecer; mas no final do dia acabávamos tendo a tal canção finalizada." Isso se chama, Priscilla, falta de capacidade para compôr. Que bom que seu amigo Martin está te passando esses exercícios que deveriam ter sido feitos há pelo menos uns oito anos na sua carreira.
No final das contas, é uma música (instrumentalmente) muito bonita e dá a entender que o disco será bonito também. Nada do que pretende ser ("O método rústico da gravação dá totalmente o tom do disco; é possível sentir a atmosfera da casa, da madeira do piso e do teto, do ambiente de fora com vazamentos em geral já que não era um estúdio acusticamente isolado. E isso a gente queria mesmo, o clima de uma casa com amigos reunidos respirando música e criando 24h por dia. Hoje não sei como classificar o som, mas acredito que a proposta seja desenvolver canções intimistas e explorar experimentalismos tendo o piano e violão como base."). Mais uma vez, Pitty pretensiosa e mostrando que sua carreira não condiz com seu pensamento "fodástico" a seu respeito.
Foi divulgada somente uma música do disco, mas passa a mensagem claramente: um disco lindo instrumentalmente, mas nem de perto eficiente quanto se propôe a ser, tão clichê nas letras como todas as outras músicas da cantora e igualmente metido a ser foda como ela pensa que é. Enquanto houver plateia, haverá show, então tudo bem. Ela atinge seus fãs e isso é digno de mérito, ao menos. Todos continuam com seus admiráveis chips programados e perpetuando a geração MTV que deveria ter morrido em 2003.
Quanto à 'Dançando', provavelmente será tema de fim de ano da propaganda do Itaú e cairá no ostracismo de tanto tocar pentelhamente como 'É Preciso Saber Viver'. Mas tudo bem. Foi fabricada para isso mesmo. O triste da história é que a Pitty não foi, mas se tornou, o que eu acho ainda pior. Mas a vida segue. "Eu sei que, lá no fundo, há tanta beleza no mundo".

Nenhum comentário:
Postar um comentário