domingo, 22 de janeiro de 2012
Livre outra vez
Eu sei que eu tive uma infância diferente da de muitas pessoas - talvez semelhante a quem tivesse pais roqueiros como eu tive, em maior ou menor grau. Fato é que brincar no chão do estúdio enquanto meu pai ensaiava com a banda de heavy-metal dele era uma coisa cotidiana. Ou então desenhar sentada na mesa enquanto minha mãe trabalhava no seu atelier ouvindo (e cantando a plenos pulmões) Rita Lee. Ou não ter a menor ideia de quem era aquele tal de Carlini, quando meu pai abria o portão para ele entrar e tocar junto com outros caras como o Rufino, Faíska, enfim, a galera da Pompéia toda. Essa era a minha infância.
Minha mãe sempre foi muito fã da Rita e eu cresci com a mesma admiração. Quer dizer, no caso dela eu considero diferente, pois minha mãe seria a melhor amiga da Rita Lee com certeza, pois são muito parecidas. Eu não. Meu caso é de fã mesmo. Mas, quando paro para pensar sobre a influência da Rita na minha vida, vejo que vem lá de longe. E ela está presente há mais tempo que os próprios Beatles, semelhante, talvez, a KISS e Deep Purple no quesito "eu ouço isso desde que eu nasci".
Diz minha mãe que, quando eu era pequena, eu só dormia quando ela cantava 'Disco Voador', da Rita. E eu também sempre fui meio aficcionada por ufologia mesmo.
E nós tínhamos vários vinis, como era de se esperar. Não tenho ideia de onde foram parar, infelizmente. Há alguns anos, encontrei o "Fruto Proibido" (Rita Lee & Tutti Frutti, 1975) na Benedito Calixto e comprei tão feliz que o ouvi durante semanas novamente. Como aquele disco é bom. Ele é praticamente um "Venus & Mars" da Rita. Lembro do DVD da biografia dela (aquele triplo), onde ela fala dessa fase que foi tão trash, que ela não sabia o que faria depois de sair dos Mutantes, se ia ganhar dinheiro ou só cantar no chuveiro. E aquele primeiro show que ela fez com o Tutti e a Lucinha Turnbull, toda Bowiezada, acho sensacional! Me arrepia todo o braço só de ter toda a superação e, sim, ela estava ali, vivaça, roqueira, dando um pé na bunda do Sérgio Dias e fazendo rock. Mais ou menos quando o Paul saiu dos Beatles mesmo e fez sucesso com o Wings. Ao ver a Rita entrando no palco naquele show, mesmo que somente pela TV, eu sinto um orgulho imenso de ser mulher e tocar, ter banda, porque não é pra qualquer uma não.
Um dos aspectos que eu mais admiro na Rita é a habilidade de compôr em língua portuguesa. Ela conta lá no DVD também que foi o Caetano que deu uns toques para eles e aí ela deslanchou. Eu acho que ninguém escreve nem nunca escreveu músicas em português (rock, fique claro, mas mesmo outros estilos, se bobear) como ela. Na dúvida, basta fazer um passeio pela discografia e conferir. E acho que 80% das letras, só sendo mulher para entender de verdade.
O disco que ela gravou com a LT, "As Cilibrinas do Éden", foi meu preferido durante um bom tempo, quando eu descobri (obrigada, internet). Ouvi 'Bad Trip' tantas vezes que às vezes até esqueço que não é de nenhum disco "oficial".
Mas a fase feliz da Rita, de quando ela conhece o Roberto de Carvalho (um marido que também é fã, #quemcurte), é a minha preferida. 'Banho de Espuma' tocou incessamente nas rádios e toca até hoje. Todos os discos da Rita pós-Roberto são bacanas para aprender - verdadeiras aulas de composição, acordes diferentes ('Mania de Você') e contrabaixo ('Chega Mais'). E eu poderia ficar aqui citando várias músicas e as características de cada uma delas, porque fã é assim mesmo.
E a tonta aqui que, quando era adolescente, lembrava todo mundo ao redor que no revéillon também era aniversário da Rita Lee. E eu sempre que desejava parabéns a ela, por pensamento. Olha as maluquices. Daí uma vez, com uns 15 anos, eu cheguei em casa e meu pai estava no portão conversando com o Carlini e mais alguém que eu não me lembro. E, de boa, eu nunca fui muito fã dele. Acabei soltando a clássica: "deve ser difícil viver de um solo que você criou há tantos anos". Quase apanhei do meu pai, mas no fundo ele sabia que eu estava certa, haha.
A primeira música que eu aprendi a tocar no violão foi 'Doce Vampiro' (Em-Am, fácil para quem está começando), que uma amiga me ensinou. E eu sempre tive a Rita como um modelo de artista nacional mulher e roqueira que era minha referência. Tanto que quase mandei um professor para-aquele-lugar na faculdade de Jornalismo, quando ele pediu para que a turma entrevistasse alguém importante e, quando eu disse que queria entrevistá-la, ele fez um comentário imbecil a respeito, porque ela não estava na mídia etc. Fiquei enojada. Não foi por isso que eu saí da faculdade, mas esse tipo de coisa contribuíu bastante. E eu ainda fico chocada (esse é o termo certo) sobre como as pessoas simplesmente não conhecem nem tentam entender a importância que a Rita tem para a música brasileira. Eu acho que, em termos de importância/fama/composição/popularidade, ela só perde para o Roberto Carlos. Aí eu lembro que vivemos em um país machista de m* e lembro do motivo.
Mas sabe o que é o pior de tudo, tudo, tudo? É que eu nunca fui a um só show dela. E agora ela se aposentou, eu estou chegando no Rio só amanhã e as coincidências continuam guiando a minha vida.
Eu gosto de pensar na Rita como uma mulher que transformou a música brasileira. Que formou o rock brasileiro. Que foi cult ao mesmo tempo que teve 90% das novelas com músicas suas na trilha sonora. Que viveu, sobreviveu à fama, teve que aguentar muita bad trip furada de música estranha pra gente esquisita. Mas que, acima de tudo, foi uma pessoa que sempre fez o que quis, erra, acerta, ama, odeia, xinga, mostra o dedo do meio no show, fala bem dos filhos, e além de tudo compôe como ninguém.
Sabe, Rita, eu sei que você vai ficar numa boa aí com as suas plantinhas. Mas continue postando no Twitter, para a gente aqui do outro lado saber que você está bem. Here, there and everywhere.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Como eu comecei a gostar de Pearl Jam - ou somente do Eddie Vedder
Na década de 1990, eu não era fã de Pearl Jam. Tinha uma amiga que amava e, toda vez que o pai saía de casa, ela colocava os discos dele no último volume e ficava cantando a plenos pulmões. Foi assim que eu conheci 'Alive', 'Jeremy', 'Black' e todas essas músicas de sempre, mas confesso que nunca dei muita bola.
Na metade da década de 2000, meu namorado (hoje marido) entrou em uma banda cover deles para tocar baixo, sem gostar ou conhecer, assim como eu. A partir dali, eu comecei a ter uma verdadeira overdose de Pearl Jam, pois passei a acompanhar a banda na maioria dos shows. Mas eu adorava falar mal. Achava as músicas parecidas demais, outras beeem chatas (nunca gostei de 'Crazy Mary') e tomei gosto por uma ou outra, como 'Go', 'Porch' e 'State Of Love And Trust'.
Mas aí aconteceu uma coisa verdadeiramente inesperada - o disco/filme/adaptação/livro/história do "Into The Wild". Bem no momento em que eu estava passando por tudo aquilo, de extrema necessidade de contato com a natureza, fazendo trilhas, acampando, enfim. Achei a trilha sonora a coisa mais bem feita dos últimos tempos e, a partir dali, eu resolvi dar uma chance ao Pearl Jam, percebendo que, na verdade, eu gostava bastante do Eddie mesmo. Uma pessoa para escrever aquelas letras precisa saber muito bem do que está falando, e ele estava.
No mais, meu disco preferido ainda é o "Ten" e nenhuma música do Pearl Jam se compara à profundidade do "Into The Wild", mas é uma boa banda mesmo assim. Merece ser o que é. O documentário mostra muito o peso que ser famoso com música tem - do suicídio do Kurt às pessoas que morreram pisoteadas em um show deles em 2005. Pra ser músico tem que tocar o f*-se geral e simplesmente aceitar que você não fará mais nada da vida além disso. Eu tomei o caminho contrário há alguns anos e me arrependo um pouco, então uma banda que tenha mais de 20 anos de estrada tem todo o meu respeito.
It's a nice band after all.
sometimes life don't leave you alone
hold me and make it the truth
that when all is lost there will be you
cuz to the universe, i don't mean a thing
terça-feira, 29 de novembro de 2011
That's all I want to say
Para mim, é extremamente difícil escrever sobre esse assunto. Quem me conhece sabe como o George sempre foi o meu Beatle preferido. Antigamente, eu assinava como Thais Harrison. Lá, bem antigamente, quando eu ainda era praticamente criança e montei um fã-clube dos Beatles. Muita gente ainda me conhece assim, daquela época. Então assim, meu relato não vai ter muita ordem, mas vai ser de coração, na medida que eu conseguir escrever sem parecer piegas demais. O que eu não podia fazer era deixar essa data passar em branco sem escrever nada, nem uma nota.
Quando a gente vê o George lá no comecinho dos Beatles não consegue imaginar que a mesma pessoa compôs um álbum como o All Things Must Pass, tão pouco tempo depois. Quer dizer, ele lançou esse disco em uma quantidade de tempo menor do que a que existe entre ele e 'Don't Bother Me', do que os 10 anos que hoje completam desde a sua morte, em 2001.
Quando eu penso no George, vejo um garoto sarcástico que via além do que os outros viam. Não era um sarcasmo igual ao do John, de provocação, mas de sátira mesmo daquele mundo em que ele vivia e achava maluco. E ele era um Beatle - imagina só tudo o que ele já viu. Depois, quando ele conheceu a cultura oriental e mergulhou tão fundo, para nunca mais voltar, e as palavras da Olivia sobre "ele começar a se preparar para o que ele vinha realmente ensaiando há tanto tempo"... tudo isso me comove muito. Eu conheço pouco da filosofia hare-krishna, mas tenho certo apreço pelo budismo, que tem alguns pontos parecidos. Um deles é o de que você passa a vida toda se preparando para o momento em que vai morrer - quer dizer, você faz o que tem que fazer, deixa o seu legado, mas se prepara espiritualmente para a chegada da morte, para que ela não seja algo ruim, mas simplesmente uma passagem, o fim do físico. E ouvir da Olivia que o George disse isso me comoveu muito. A gente trabalha a nossa espiritualidade mas, né, no caso dele, também grava discos, vive a vida. E, quando ele sofreu aquele atentado, ele ficou chocado por descobrir que não estava preparado para morrer, voltando sua vida para isso dali em diante. Para mim, foi algo tipo "chega de brincar de religião, agora vou fazer tudo o que eu vim estudando esses anos todos". E morreu com um "love one another" de arrepiar a espinha.
Eu não sei, sabe. Adoro a Pattie Boyd e, apesar de (ainda) não ter lido seu livro, tudo o que eu li a respeito dela e relatos da própria sobre aquele período me fazem imaginar o quão sofrido foi para todo mundo que esteve envolvido. Pensar em um George sacana, trancado com a Maureen em outro quarto, dando risadas, é assustador. Mas não espero perfeição de ninguém, e acho que é isso o que tornava o George tão humano: seus erros e, acima de tudo, seu senso de humor. Um humor dolorido, sempre com um algo mais por trás do sorriso, e que depois encontraria amizade na galera do Monty Python, especialmente no Eric Idle - outro que eu adoro. Não tem uma vez sequer durante o Anthology que eu não ache o George sensacional em suas respostas, quando ele sempre dava uma risadinha com a boca torta querendo dizer "nheeee, nem era assim, mas vou dar a resposta mais fácil".
Além de tudo, ele era pisciano, o que já é um dado essencial sobre a sua personalidade - quieto, obscuro, meio arrogante, sarcástico, emotivo introspectivamente, amigo dos amigos, mas na dele. Vejo algumas fotos do tempo do cabelão e vejo um George meio gótico, sombrio, e era realmente uma fase assim pela qual ele estava passando. Tudo faz sentido, hoje.
Quando ele morreu, eu descobri vendo nos jornais a caminho da faculdade, pela manhã. Na sala de aula, meus colegas me cumprimentavam como se alguém da minha família tivesse morrido. Eu nem conseguia respirar. Não consegui ficar na aula, saí da faculdade e fui direto para o Centro, quando encontrei o Luiz (do Cavern Club), com os olhos vermelhos e trabalhando ali, na sua banquinha, porque sabia que algum fã de Beatles iria até ele e ele queria estar lá. Tudo foi muito comovente. Eu o abracei, chorei. Conversamos sobre alguns discos, inevitavelmente sobre a morte do John, há tantos anos, e de como não estamos preparados para um acontecimento desses com alguém que é tão inspirador para todos nós. Era aquilo: nós já esperávamos? Sei lá. Acho que a gente nunca espera uma coisa dessas.
Eu me lembro que, quando comecei a tocar guitarra, li no livro do Hunter Davies que o George só parava de tocar quando seus dedos estavam sangrando. Dá para entender a magnitude de uma força de vontade dessas? Então eu tinha aquilo como o meu parâmetro para parar de tocar e ir dormir. Bons tempos aqueles.
No final das contas, all things must pass? Será? Estamos aqui, 10 anos depois da sua morte, lamentando tanto. Eu, pelo menos, alimentei esse luto há vários meses. Ouvi quase que exclusivamente os álbuns solo dele este ano e, hoje, acordei com um sentimento extremamente diferente. Eu não queria ficar triste. Procurei fotos bacanas dele pela internet para colocar no meu Facebook e só encontrei fotos dele dando risada, feliz, ou ao menos contente. E isso é o George. É participar do Rutles como um repórter chato. É estar ao lado do Eric Idle quando uma fã de Beatles vem e nem o reconhece. É gravar 'How Do You Sleep' com o John e mandando ver na provocação para o Paul. É largar toda uma loucura beatlemaníaca ao seu redor para cuidar do jardim. Isso é o George.
Eu agradeço por ele não ter morrido naquele atentado, porque nós sabemos que isso geraria um ataque insano aos outros dois, tipo "a maldição dos Beatles". O Paul nem sairia de casa direito. E também porque ele não estava preparado para morrer, nem merecia morrer daquele jeito. Ele se preparou para a morte e morreu como quis.
Art of dying? Definitivamente.
That is all I want to say
Our love could save the day
That is all I'm waiting for
To try to love you more...
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
"High Flying Birds", Noel Gallagher (2011)
Quando o Liam lançou seu "Different Gear, Still Speeding" com o Beady Eye, meu primeiro comentário foi: "me avisem quando sair o disco solo do Noel". E aqui está ele, dois anos depois.
É chato, muito chato, comparar Oasis a Beatles. Só que é impossível fugir da comparação que farei entre Noel/Liam e Paul/John. Quem gosta de Beatles já cansou de ouvir como "John era o cara de frente, e Paul era o cara que fazia a coisa de verdade". Concordando ou não no caso dos Beatles, isso é mais ou menos aplicável ao Noel e ao Liam. E todo mundo sabia disso também.
Assim, quando o Noel colocou no ar seu site oficial e anunciou que lançaria seu tão aguardado disco solo em outubro, parece que o meu mundo voltou a 1996, quando ouvi 'Don't Look Back In Anger' pela primeira vez. Pela primeira vez em muitos anos, eu estava ansiosa pelo lançamento de um novo álbum. Nem os últimos discos do Oasis tinham causado essa sensação.
Noel sempre foi uma grande inspiração para mim, talvez equiparado a Paul, John e George. Mesmo. Muito do que eu compus quando era adolescente foi baseado nas suas canções, e quando encontro alguns cadernos antigos com letras eu me vejo deitada no quarto escuro ouvindo o "Definitely Maybe" pela enésima vez de forma tão viva em minha memória como se tivesse acontecido na semana passada. Noel fez parte do meu "período essencial", aquele entre a adolescência e a fase adulta, quando achamos que sabemos tudo e queremos mudar o mundo com uma guitarra na mão. Então sua importância em minha formação musical é inegável, parte do que eu sou mesmo, e influencia cada vez que eu sento ao piano ou com o violão no colo para compôr qualquer canção. Por esse motivo, aguardar o lançamento do seu disco solo foi quase que uma meditação silenciosa que eu fiz desde o fim do Oasis, sabendo que ele viria. E veio.
Com o passar do tempo, as músicas começaram a vazar. A primeira que eu ouvi foi 'The Death Of You And Me', e a pegada 'The Importance Of Being Idle' com uma linhazinha de 'Mr. Kite' já me fez prender a respiração. Fiquei ansiosa pelo restante do disco, que foi saindo nas semanas seguintes.
'Everybody's On The Run', bobagem ou não, ficaria muito boa na voz do Liam, mas de cara dá para entender como Noel apresenta o que seria um Oasis mais maduro que já dava para perceber em outras músicas da banda que ele cantava. Dá para saber que o disco todo vai ser assim, com a carinha dele. E era isso mesmo o que a gente queria. A gente sabia que não iam rolar guitarras sujas e vocal rasgado. Noel é melódico. É 'Sunday Morning Call'. 'Some Might Say'. 'The Masterplan'. E é isso o que ele mostra em High Flying Birds.
'Dream On' começa com seu violão e a batida na bateria que lhe são tão peculiares. "She doesn't matter at all" e o vocal característico de Noel estão ali, cumprindo o prometido. 'If I Had a Gun' é puramente Oasis. '(I Wanna Live in a Dream in My) Record Machine' era, originalmente, uma música para a ex-banda. Acabou sobrando, ficando para depois, e lançada agora. Abaixo, um vídeo com uma demo dela e imagens que vão deixar nostálgico até o fã mais blasé.
'Soldier Boys And Jesus Freaks' traz as velhas cornetinhas que Noel adora. 'AKA... Broken Arrow' mostra um bongô inusitado e uma melodia facilmente esquecível mas, como todas, com a tradicional estrofezinha do meio. É a escola Paul McCartney de compôr que caracteriza tanto as músicas do Noel. '(Stranded On) The Wrong Beach' segue a mesma linha e poderia facilmente ser tocada no piano por um compositor comum, mas Noel a fez com perfume urbano peculiar. 'Stop The Clocks' fecha o disco com a lembrança de uma época que pode não voltar mais, mas está aí para ser lembrada por todos os fãs de Oasis ou, na verdade, de Noel. O violão, o teclado, os backings. Já acabou? Infelizmente sim, mas com a mesma tradição de sempre, finalizando o disco com a baladinha que vai crescendo e deixando um ar de sonho esquecido lá atrás, em 1997, talvez.
O que mais me deixou contente com esse disco é que parece Oasis, o que confirma o indicativo que todos desconfiavam sobre a banda. E não desmerecendo o Liam, mas o Noel é o Noel. E tem outra maneira de fazer música que nem a que você vem fazendo há mais de 15 anos? O nome disso, meus caros, é essência.
"High Flying Birds", Noel Gallagher (2011)
'Everybody's On The Run'
'Dream On'
'If I Had a Gun'
'The Death Of You And Me'
'(I Wanna Live in a Dream in My) Record Machine'
'AKA... What a Life!'
'Soldier Boys And Jesus Freaks'
'AKA... Broken Arrow'
'(Stranded On) The Wrong Beach'
'Stop The Clocks'
"Eu estarei dançando", gerundismos e outros clichês
Quando li que a Pitty lançaria um disco inspirado no Nick Drake, me deu calafrios. Não porque eu pensei que popularizaria um artista que definitivamente não foi feito para ser popular. Pensei que isso talvez levasse alguns fãs dela a conhecerem a obra dele, e achei menos pior. Julguei a qualidade do disco mesmo.
Ouvi a primeira música divulgada, 'Dançando', e claro que não posso falar sobre o disco todo antes de ouví-lo, mas tenho algumas considerações a fazer sobre a música no geral.
Em primeiro lugar, achei o dedilhado inicial fraquíssimo. O dia que isso puder ser associado ao Nicholas, podem dizer para eu virar fã de Capital Inicial. Mas não achei a música ruim, antes que vocês pensem isso. A música é bonita. Até a ms. Priscilla começar a cantar.
Eu gostava da Pitty, mais ou menos. Quando ela começou, trazendo a tona o cenário do rock baiano, e toda com boa vontade e fúria para fazer música, no auge do sentimento adolescente que a maioria de nós experimentou, eu achei bacana. Ela gostava de Pantera! Quer dizer, isso não é comum para uma artista brasileira que estava ficando famosa. Também vi alguns pedaços de um programa que mostrava a casa dela, o quarto que ela (e o então namorado) montaram, onde ela escrevia as músicas, e até me identifiquei. Achei que ela merecia fazer sucesso. Então tive uma espécie de simpatia por ela por conta de todas essas coisas.
Só que aí começaram a acontecer fatos que decepcionam um pouco. Enfiaram ela no acústico do Ira, algo totalmente fake, apenas para projetá-la nacionalmente. E a música com a letra mega-clichê ("quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra-ah") e depois defendendo os fracos e oprimidos ("o importante é ser você, mesmo que seja estranho, seja você"). Nada muito diferente do que o Paulo Coelho, Augusto Cury e similares falam. Mas ok, atinge o público. Só que, musicalmente, a banda era boa. Eu realmente gostava e ignorava as letras (como faço com tantas músicas que eu gosto). Até que deu.
Ela mergulhando cada vez mais em um mar de clichês e a MTV plantando-a insistentemente como "a novidade que todo mundo deveria adorar" me irritavam profundamente. Tiraram a aura rock'n roll da coisa toda, de batalhar, fazer shows, compôr etc para chegar lá. O encantamento, que já era fraco, se quebrou. Quando vieram prêmios tipo o VMB, eu parei de prestar atenção.
Quando eu olho para a capa de "Admirável Chip Novo", eu fico um pouco triste porque vejo a Pitty roqueira que era legal. E aí corta para o clipe nonsense de 'Me Adora', que provavelmente é a música mais "vergonha-alheia" do rock nacional, onde ela atinge níveis pretensiosos dignos de fazer o Rafinha Bastos ficar com inveja. Porque todos invejam a Pitty. Ela é foda. u-hu.
Lembro de um programa onde estavam ela, a Rita Lee e a Wanderléia, no GNT, talvez, e ela simplesmente não conseguia conversar com as duas. Ela não estava no mesmo patamar e precisava comer muito arroz com feijão para chegar, mas achava que se equiparava. E acho que esse foi o grande erro que a MTV colocou na sua cabeça - conferir-lhe um status de que era foda, invejada, a cara oficial do rock brasileiro. Quando, na verdade, ela só é mais um produto da indústria fonográfica. E qual a surpresa? Tantos artistas são assim! O problema, pelo menos para mim, é que ela tinha conteúdo. Tinha potencial. Antes. Até subir a cabeça e achar que todos os clichês do mundo sustentavam uma carreira musical que ela achava que tinha. Mas nunca teve. Poderia ter tido. Enfim.
E então ela me vem com um lançamento como "Agridoce", com a mesma pretensão que os Los Hermanos quando lançaram "O Bloco do Eu Sozinho" - quer ir do A Hard Day`s Night ao Sgt. Peppers sem passar pelo amadurecimento necessário para tal feito. Pode ser um disco bom? Claro que sim. Mas, pelo que eu ouvi do primeiro single ('Dançando'), tenho outras considerações a fazer além do dedilhado e das qualidades do guitarrista, que parece ser a alma do disco.
Em segundo lugar, e suficientemente argumentativa, a letra mais clichê impossível, já característica de todas as letras da Pitty. "O mundo acabar hoje e eu estarei dançando". Algo como Dinho Ouro Preto cantando "o mundo vai acabar e ela só quer dançar". Ou a atendente de telemarketing mais próxima de você dizendo "sua conta cancelada hoje e eu estarei transferindo". Todo um tema incessantemente trabalhado pelas últimas gerações da música de volta, reunindo todos os clichês. Clichês, clichês e mais clichês. Mas sabe o que acontece? Isso vende. Provavelmente, vai virar um dos maiores sucessos dela. Mas o que isso diz? O que já estamos cansados de saber sobre o gosto de quem consome essas músicas.
Em terceiro lugar, o nome do disco. "Chiaroscuro" não foi suficientemente "senta lá, Cláudia" para as metáforas de antagonismo? Claro/escuro é tão boboca e raso quanto amargo/doce, mas o que realmente impressiona é a continuidade do pensamento. Nada de inovador para alguém que deve ter ouvido Nick Drake pela primeira vez porque foi apresentado pelo guitarrista, esse sim uma alma musical que vale a pena prestar atenção. Li no Scream&Yell uma entrevista com os dois e fica clara a superficialidade da Pitty, uma pena.
"Tenho a mania de sempre fazer o texto primeiro, com calma, com tempo. No Agridoce foi interessante me ver arrancada dessa zona de conforto algumas vezes, quando tínhamos uma música pronta e Martin me incitava a fazer a letra ali, na hora. Eu dava uma surtada, ficava meio louca, achando impossível de acontecer; mas no final do dia acabávamos tendo a tal canção finalizada." Isso se chama, Priscilla, falta de capacidade para compôr. Que bom que seu amigo Martin está te passando esses exercícios que deveriam ter sido feitos há pelo menos uns oito anos na sua carreira.
No final das contas, é uma música (instrumentalmente) muito bonita e dá a entender que o disco será bonito também. Nada do que pretende ser ("O método rústico da gravação dá totalmente o tom do disco; é possível sentir a atmosfera da casa, da madeira do piso e do teto, do ambiente de fora com vazamentos em geral já que não era um estúdio acusticamente isolado. E isso a gente queria mesmo, o clima de uma casa com amigos reunidos respirando música e criando 24h por dia. Hoje não sei como classificar o som, mas acredito que a proposta seja desenvolver canções intimistas e explorar experimentalismos tendo o piano e violão como base."). Mais uma vez, Pitty pretensiosa e mostrando que sua carreira não condiz com seu pensamento "fodástico" a seu respeito.
Foi divulgada somente uma música do disco, mas passa a mensagem claramente: um disco lindo instrumentalmente, mas nem de perto eficiente quanto se propôe a ser, tão clichê nas letras como todas as outras músicas da cantora e igualmente metido a ser foda como ela pensa que é. Enquanto houver plateia, haverá show, então tudo bem. Ela atinge seus fãs e isso é digno de mérito, ao menos. Todos continuam com seus admiráveis chips programados e perpetuando a geração MTV que deveria ter morrido em 2003.
Quanto à 'Dançando', provavelmente será tema de fim de ano da propaganda do Itaú e cairá no ostracismo de tanto tocar pentelhamente como 'É Preciso Saber Viver'. Mas tudo bem. Foi fabricada para isso mesmo. O triste da história é que a Pitty não foi, mas se tornou, o que eu acho ainda pior. Mas a vida segue. "Eu sei que, lá no fundo, há tanta beleza no mundo".
Ouvi a primeira música divulgada, 'Dançando', e claro que não posso falar sobre o disco todo antes de ouví-lo, mas tenho algumas considerações a fazer sobre a música no geral.
Em primeiro lugar, achei o dedilhado inicial fraquíssimo. O dia que isso puder ser associado ao Nicholas, podem dizer para eu virar fã de Capital Inicial. Mas não achei a música ruim, antes que vocês pensem isso. A música é bonita. Até a ms. Priscilla começar a cantar.
Eu gostava da Pitty, mais ou menos. Quando ela começou, trazendo a tona o cenário do rock baiano, e toda com boa vontade e fúria para fazer música, no auge do sentimento adolescente que a maioria de nós experimentou, eu achei bacana. Ela gostava de Pantera! Quer dizer, isso não é comum para uma artista brasileira que estava ficando famosa. Também vi alguns pedaços de um programa que mostrava a casa dela, o quarto que ela (e o então namorado) montaram, onde ela escrevia as músicas, e até me identifiquei. Achei que ela merecia fazer sucesso. Então tive uma espécie de simpatia por ela por conta de todas essas coisas.
Só que aí começaram a acontecer fatos que decepcionam um pouco. Enfiaram ela no acústico do Ira, algo totalmente fake, apenas para projetá-la nacionalmente. E a música com a letra mega-clichê ("quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra-ah") e depois defendendo os fracos e oprimidos ("o importante é ser você, mesmo que seja estranho, seja você"). Nada muito diferente do que o Paulo Coelho, Augusto Cury e similares falam. Mas ok, atinge o público. Só que, musicalmente, a banda era boa. Eu realmente gostava e ignorava as letras (como faço com tantas músicas que eu gosto). Até que deu.
Ela mergulhando cada vez mais em um mar de clichês e a MTV plantando-a insistentemente como "a novidade que todo mundo deveria adorar" me irritavam profundamente. Tiraram a aura rock'n roll da coisa toda, de batalhar, fazer shows, compôr etc para chegar lá. O encantamento, que já era fraco, se quebrou. Quando vieram prêmios tipo o VMB, eu parei de prestar atenção.
Quando eu olho para a capa de "Admirável Chip Novo", eu fico um pouco triste porque vejo a Pitty roqueira que era legal. E aí corta para o clipe nonsense de 'Me Adora', que provavelmente é a música mais "vergonha-alheia" do rock nacional, onde ela atinge níveis pretensiosos dignos de fazer o Rafinha Bastos ficar com inveja. Porque todos invejam a Pitty. Ela é foda. u-hu.
Lembro de um programa onde estavam ela, a Rita Lee e a Wanderléia, no GNT, talvez, e ela simplesmente não conseguia conversar com as duas. Ela não estava no mesmo patamar e precisava comer muito arroz com feijão para chegar, mas achava que se equiparava. E acho que esse foi o grande erro que a MTV colocou na sua cabeça - conferir-lhe um status de que era foda, invejada, a cara oficial do rock brasileiro. Quando, na verdade, ela só é mais um produto da indústria fonográfica. E qual a surpresa? Tantos artistas são assim! O problema, pelo menos para mim, é que ela tinha conteúdo. Tinha potencial. Antes. Até subir a cabeça e achar que todos os clichês do mundo sustentavam uma carreira musical que ela achava que tinha. Mas nunca teve. Poderia ter tido. Enfim.
E então ela me vem com um lançamento como "Agridoce", com a mesma pretensão que os Los Hermanos quando lançaram "O Bloco do Eu Sozinho" - quer ir do A Hard Day`s Night ao Sgt. Peppers sem passar pelo amadurecimento necessário para tal feito. Pode ser um disco bom? Claro que sim. Mas, pelo que eu ouvi do primeiro single ('Dançando'), tenho outras considerações a fazer além do dedilhado e das qualidades do guitarrista, que parece ser a alma do disco.
Em segundo lugar, e suficientemente argumentativa, a letra mais clichê impossível, já característica de todas as letras da Pitty. "O mundo acabar hoje e eu estarei dançando". Algo como Dinho Ouro Preto cantando "o mundo vai acabar e ela só quer dançar". Ou a atendente de telemarketing mais próxima de você dizendo "sua conta cancelada hoje e eu estarei transferindo". Todo um tema incessantemente trabalhado pelas últimas gerações da música de volta, reunindo todos os clichês. Clichês, clichês e mais clichês. Mas sabe o que acontece? Isso vende. Provavelmente, vai virar um dos maiores sucessos dela. Mas o que isso diz? O que já estamos cansados de saber sobre o gosto de quem consome essas músicas.
Em terceiro lugar, o nome do disco. "Chiaroscuro" não foi suficientemente "senta lá, Cláudia" para as metáforas de antagonismo? Claro/escuro é tão boboca e raso quanto amargo/doce, mas o que realmente impressiona é a continuidade do pensamento. Nada de inovador para alguém que deve ter ouvido Nick Drake pela primeira vez porque foi apresentado pelo guitarrista, esse sim uma alma musical que vale a pena prestar atenção. Li no Scream&Yell uma entrevista com os dois e fica clara a superficialidade da Pitty, uma pena.
"Tenho a mania de sempre fazer o texto primeiro, com calma, com tempo. No Agridoce foi interessante me ver arrancada dessa zona de conforto algumas vezes, quando tínhamos uma música pronta e Martin me incitava a fazer a letra ali, na hora. Eu dava uma surtada, ficava meio louca, achando impossível de acontecer; mas no final do dia acabávamos tendo a tal canção finalizada." Isso se chama, Priscilla, falta de capacidade para compôr. Que bom que seu amigo Martin está te passando esses exercícios que deveriam ter sido feitos há pelo menos uns oito anos na sua carreira.
No final das contas, é uma música (instrumentalmente) muito bonita e dá a entender que o disco será bonito também. Nada do que pretende ser ("O método rústico da gravação dá totalmente o tom do disco; é possível sentir a atmosfera da casa, da madeira do piso e do teto, do ambiente de fora com vazamentos em geral já que não era um estúdio acusticamente isolado. E isso a gente queria mesmo, o clima de uma casa com amigos reunidos respirando música e criando 24h por dia. Hoje não sei como classificar o som, mas acredito que a proposta seja desenvolver canções intimistas e explorar experimentalismos tendo o piano e violão como base."). Mais uma vez, Pitty pretensiosa e mostrando que sua carreira não condiz com seu pensamento "fodástico" a seu respeito.
Foi divulgada somente uma música do disco, mas passa a mensagem claramente: um disco lindo instrumentalmente, mas nem de perto eficiente quanto se propôe a ser, tão clichê nas letras como todas as outras músicas da cantora e igualmente metido a ser foda como ela pensa que é. Enquanto houver plateia, haverá show, então tudo bem. Ela atinge seus fãs e isso é digno de mérito, ao menos. Todos continuam com seus admiráveis chips programados e perpetuando a geração MTV que deveria ter morrido em 2003.
Quanto à 'Dançando', provavelmente será tema de fim de ano da propaganda do Itaú e cairá no ostracismo de tanto tocar pentelhamente como 'É Preciso Saber Viver'. Mas tudo bem. Foi fabricada para isso mesmo. O triste da história é que a Pitty não foi, mas se tornou, o que eu acho ainda pior. Mas a vida segue. "Eu sei que, lá no fundo, há tanta beleza no mundo".
terça-feira, 21 de junho de 2011
Love in song
Semana passada fiquei doente (pneumonia) e fiquei off na maior parte do tempo, então não consegui postar no dia do aniversário do Paul (sábado, 18/06), quando ele completou 69 anos. Nesse dia, meu filho estava com tosse e a garganta inflamada. Como eu já estava com pneumonia, corremos para o hospital, com medo que ele também estivesse. Tomou injeção, fez exames, enfim… todo o necessário para deixá-lo chororô o dia inteiro. De noite, dormiu no horário normal (umas 18h) e acordou às 22h chorando, com dorzinha.
Estou contando toda essa história só para dizer que a única coisa que acalmou o meu filho foi ter colocado Paul McCartney para ele ouvir no iPod. Tocou ‘Waterspout’, ‘Calico Skies’, ‘Bluebird’. Ele quietinho, se acalmando, prestando atenção. E dormiu. Achei bonito. Fiquei pensando se existiria maneira mais coerente de lembrar do aniversário dele.
Pessoal se reuniu lá no Cavern Club e eu queria ter ido, mas nem na pós consegui ir (e talvez tenha comprometido o semestre). A importância do Cavern na minha vida é enorme. Basta dizer que o meu marido me conheceu entrando em contato através de um anúncio que eu deixei lá em 1999, procurando músicos para a minha banda. E o mais engraçado é que, em janeiro daquele ano, o Luiz organizou um show com a Abbey Road (hoje praticamente All You Need Is Love) no dia 31, em homenagem ao show no telhado (30 anos), em que eu fui e o Ande também, mas ainda não nos conhecíamos. Podemos dizer então que, se não fosse pelo Paul, o Cavern Club não existiria e, consequentemente, talvez nem o Anderson tivesse me conhecido.
A primeira música dos Beatles que eu ouvi (sabendo que era Beatles) foi ‘Michelle’. Meu pai estava tocando violão em uma festa em casa e uma moça começou a cantar. Eu achei a música diferente e perguntei de quem era. Me chamou a atenção. E ele disse: “é dos Beatles”. Meu pai morreu de câncer ano passado, quatro dias antes de o meu filho nascer.
Quando eu tinha cerca de 7 anos de idade, participei de uma festinha do sorvete na escola e ganhei um disco como “prenda”, em uma daquelas brincadeiras. Lembro nitidamente da imagem: eu subindo as escadas, olhando para o disco (Spies Like Us) e pensando: “Paul McCartney… já ouvi falar nesse cara”. Era o meu primeiro disco “de verdade” (sem ser do Balão Mágico, por exemplo). Fico pensando na alma caridosa que doou aquele exemplar para ser prenda na festa da escola sem saber que cairia nas mãos de uma criança que se transformaria em uma grande fã do Paul alguns anos depois. O destino é uma coisa muito louca mesmo.
Eu comecei a tocar com uns 13 ou 14 anos de idade. Ganhei um teclado (depois de buzinar meses na orelha do meu pai) e uma amiga me ensinou a tocar violão. Daí eu comecei a gostar de Oasis, que me levou novamente aos Beatles. E então, aos 15 anos, lá estava eu deixando de comer meu lanche na escola para comprar algum disco no sebo que tinha lá perto. No decorrer do ano, fui montando minha coleção. Lembro de ficar em casa ouvindo o Sgt. Pepper’s, olhando para o teto, deitada, viajando naquilo. Era um sentimento que eu nunca havia tido em toda a minha vida. Foi quando eu decidi que queria montar uma banda.

Não foi difícil: bastou juntar alguns amigos que tocavam e também gostavam de Beatles, mas o grande problema é que, tal como os Beatles no começo, todo mundo tocava guitarra. E lá fui eu para o baixo, meio que para dar uma de Paul (“deixa eu mostrar como se faz”) e aprendi a tocar em um mês. Sozinha, só ouvindo com o fone de ouvido e o baixo plugado na vitrola. Saía correndo da escola só para chegar em casa e ficar tocando até a hora de dormir. Lembro de ter lido que o George tocava até seus dedos sangrarem, quando começou a aprender a tocar guitarra, então esse era o meu parâmetro. Não me lembro de terem sangrado, mas como ardiam! Mesmo depois, já calejados, meus dedos ardiam demais porque eu tocava durante muitas horas seguidas.
Meu pai era músico e costumava tocar com dois amigos em um barzinho aqui perto. Um dia, um dos caras deu o cano e meu pai estava putíssimo, sem saber o que fazer porque precisava ir para o bar em meia hora. Me ofereci para tocar no lugar dele, mas só conhecia as músicas dos Beatles. Meu pai achou que daria certo. E lá estava eu, com 15 anos, tocando Beatles com o meu pai em um bar. Eu tocava guitarra, ele baixo e um amigo dele, percussão. O dono do bar gostou e pediu que a gente ficasse nos outros dias, e assim eu comecei a tocar profissionalmente. E pouco depois, a compôr minhas próprias músicas. Eu também escrevia no topo da página: “mais um original de Thais Godinho”, porque fã de Beatles é uma coisa de louco.
Tive muitas bandas depois, inclusive uma banda cover de Paul McCartney que me trouxe amigos importantes – Eric, baterista, que toca comigo até hoje (temos um projetinho de covers de Wings), e o Dinho, que toca naPaul McCartney Tribute Act com o Anderson. E nem tenho como mensurar a quantidade de pessoas que eu conheci por causa dos Beatles nos últimos 15 anos. Quando eu tinha o fã-clube (Beatles Forever) e fazia o fanzine (The Beatles Diary), conheci uma porção de gente, dei entrevista, participei de programa de TV. Hoje, parece outra vida. Parece que faz 10 milhões de anos que eu ia na Magical Mistery Tour, na Galeria do Rock, pra comprar The Beatles Book ou The Harrison Alliance (só eram vendidos lá), ou participava de algumas jans da Blackbird. Que quase montei uma banda com as Beatlegirls e vi a (infelizmente finada) Fab Revival dar seus primeiros passos. Vi o César da Abbey Road se transformar em um dos músicos mais fantásticos na All You Need Is Love – todo seu empenho para tocar canhoto e pegar os rejeitos do Paul, vendo vídeos dia e noite. O primeiro show da Zoombeatles, no Woodstock, que me deixou maluca por finalmente ter conhecido uma banda boa que não fosse “coxinha” como todas as outras. Fui em todos os dias do festival de bandas cover no hotel Hilton e conheci o Júnior e o Ricardinho (ex-Bitkids e com quem também toquei anos mais tarde) quando saímos do palco depois de tocar ‘One After 909′. Fiz uma tatuagem do Yellow Submarine no braço. Vi e vivi tanta coisa por causa dos Beatles que nem consigo numerar ou descrever como deveria.

Tanto que já tinha me conformado com o fato de morrer sem ver o Paul ao vivo. Desde que eu me conhecia por gente, ouvia boatos sobre a sua vinda. Já chorei muito por esse motivo. Até que, ano passado, ele veio. E eu sinceramente achei que fosse desintegrar quando ele entrou no palco. Só parei de chorar um pouco em ‘Let Me Roll It’! Entrar correndo no estádio e sentar a menos de 10 metros do microfone dele me deu um baque: percebi onde eu estava. E aí eu chorei. Chorei, chorei e chorei, como uma criança. Uma senhora que estava na minha frente se comoveu (“olha como ela ficou emocionada”). Era importante para todo mundo ali. Nunca vou me esquecer daquele momento.
Até comentei no dia do show com alguém, e vivo pensando nisso hoje: “e o Paul nunca saberá”.
Todo esse amor, esse motivo forte, toda a minha história e a de tantos outros fãs, ele nunca vai conhecer. Ele não vai saber que meu primeiro disco foi o Spies Like Us, que eu mudei minha vida ao ouvir ‘Michelle’, que conheci o amor da minha vida procurando músicos para tocar as canções dele, que eu chorava olhando o Hofner (caríssimo) na vitrine, que eu dei seu nome ao meu filho. Será que ele tem alguma importância na minha vida? Eu simplesmente não consigo imaginar um único aspecto da minha existência em que ele não esteja envolvido. E isso é muito, muito forte. Love in song, pura e simplesmente.
3 Responses to Love in song
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Acho que nunca te falei isso, mas você ao meu ver é uma das maiores fãs do Paul que já conheci. Alguem genuinamente e despretensiosamente fã, sem necessidade de se aparecer, ostentar coleções, acervos ou competir com outros fãs. Você sempre foi na sua, e sempre cheia de amor pelo nosso Macca! Isso conta muito,numa época onde o Paul passou a ter fãs modinhas, meninas que acampam por dias no estádio para sair no TV e na Internet, mas qdo começa o show pergunta “que musica é essa? qdo ouvem “coming up”(!!!!!),ou outras que querem pq querem subir ao palco, mas mais pelo “oba-oba” em torno da coisa do que pela emoção em si….enfim, tenho vários exemplos de fãs vazias, superficialistas, – que apesar dessa inconsistência até tem la seu lado bom ” melhor pagar de fã do Paul do que de qq artista trash” – , mas sei que a sua (nossa) paixão por esse homem transcende todos esses modismos e exibicionismos que se tornaram comuns hoje em dia. E é esse sentimento arrebatador que nos conecta, assim como nos conecta com todos quem compartilhamos esses sentimentos.
Parabéns por ser essa fã completa,competente, que nunca pediu – e nem esperou – nada em troca, mas que sempre disseminou esse amor de forma tão intensa, genuína e verdadeira. Você ta deixando um belissimo “legado” para o (seu) Paul, e um dia ele irá te agradecer por dia!
Ah, meu filho de 11 anos(que ñ se chama Paul pq meu ex marido ñ deixou) falou “Paul” antes mesmo de falar “mamãe”, e esteve no show do Paul ano passado no Morumbi. Vc ainda vai poder levar o seu, daqui a 10 anos, o Paul ainda vai ser um menino de 79
Bjao, e desculpa ter escrito essa biblia!
Que palavras maravilhosas, que história fantástica q vc tem e tenho muito orgulho de fazer parte dela tb.
Estava chorando lendo seu texto, aí li q a Aline tb chorou e pensei, bom,não sou só eu. heheh
Mas o q ela tb comentou é real. O que a gente sente pelo Paul é de verdade, vem de dentro, por isso a gente se emociona e sabe realmente o significado.
Energia é uma coisa mágica e tb tenho certeza de q ele sente, misturado com a energia dos Fake-fans ( q tb é válida)mas sente.
Lembro no show do Morumbi qdo começou aquele vídeo(zinho) antes do show q a galera cantava as músicas q tocavam no telão. Começou a tocar ‘Press’ e ninguém sabia. haha na pista prime!. Mas normal. A gente sabia, isso é o mais importante.
Chorei pra caramba por não ter conseguido ir pro Rio, Abri um pacote de doritos e fiquei sozinho assistindo ao show pelo Terra, e qdo acabou o show vi q eu tinha esquecido de comer os Doritos !! hahaha
Meu Filho tb não se chamou Paul, mas sim Arthur (neto do Paul). Não tem como fugir muito, né !!
Vamos ver se da certo da gente voltar com as Jams. Só consegui ir em uma, mas curti pra caramba. Apareçam no Tom Jazz na próxima segunda pra gente curtir uns lados B dos Beatles tb !!
Bjos